“RENASCIMENTO DO POETA” – por Lucas Rodrigues

Matéria publicada em, 25 de março de 2012

"Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Homem Novo" (Salvador Dali)

RENASCIMENTO DO POETA

Renasço neste dia ao céu poento, caduco e inquieto.
Não como fênix desprezando as cinzas, mas como o broto
Rompendo a superfície neutra da carapaça germinal.

Amanheço envolto por alarmes atônitos
Braços Armados; espadas sem mãos tintilam espasmos, cochichos,
Trovão ensurdecido pelo próprio estrondo.

Não… Não é o mesmo poeta que renasce.
Do limbo ao despertar perdeu-se o que era inútil.
Arvoro-me por vielas sensuais, incompletas, sinalizadas pela aurora em fuga.

Sem desperdício assumo a melodia que me cabe.
No vácuo sigo sem plateia; desço na estação; caminho até a ponte.
Repouso a vista sobre o velho monge.
Barrancos de arreia inertes. Vegetação intrusa – nuvens maciças no leito fértil.

Derramo meu canto sem avançar os trilhos.
O maxilar cochilando sobre o joelho curvo.
Atiro uma pedra: círculos concêntricos se dispersam sobre a água em ebulição.
Eis enfim um som, mesmo que sem eco.
Submerso, indeciso. Mas não se perde.
Sem aviso – despido de veneração ou espera – escorre até a margem próxima.
Sem pressa acalenta o espanto súbito e, passo a passo, contorna a fios de aço a anatomia definitiva da novel criatura.

Lucas Rodrigues.


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