Opinião: Das Artes e dos Artistas Freitenses

Matéria publicada em, 21 de agosto de 2011

Renato Russo, ao início dos anos 90, foi perguntado sobre o que achava da competição e do conflito que existia entre as bandas de rock do movimento “Rock-Brasil”. Ao que respondeu que o mais importante para uma banda não era lutar pelo seu espaço, mas por mais espaço, pelo movimento que representa, para todos. Afinal, o mais importante era o crescimento do movimento, que, diga-se de passagem, foi um movimento que nos resultou em bandas da envergadura de Titãs, Engenheiros do Hawaii, Camisa de Vênus, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outras.

Era um momento de firmação. O Brasil saia de ares fechados da Ditadura, que detinha o poder da censura, acabara-se o calar, era “proibido proibir”. Nada mais incentivador para mergulhar na rebeldia do rock, ritmo que já havia contagiado o mundo, mas era muito acanhado no Brasil (Jorge Bem, Raul Seixas). Era preciso definir a cara do rock do Brasil.

Estilo musical de atitude, o rock reflete a rebeldia, o discordar da ordem imposta, o protestar para modelar um mundo melhor. De maneira crítica, inteligente, longe dos monossílabos e guturalismos da swingueira e do funk (créu, desce, rala, Tum, foge, etc).

É como diz Humberto Gessinger: “por que não citar Nietzsche ao invés lá-lá ou lê-lê”. Ou Renato Russo, que também dizia que o artista deve falar da realidade, pois ele faz parte dela. E acrescento, o artista faz parte da realidade e sua realidade não pode ser somente a sexualidade.

Por isso era mais importante crescer não só uma banda, mas todo o movimento. Uma banda só, apenas consegue o sucesso pelo sucesso e depois cai, mas um movimento cultural cria ideologias, muda pensamentos, incentiva as pessoas a serem melhores e mais inteligentes, não por apenas admirar e seguir, mas principalmente, quando discordam e pensam diferente.

Erimar Oliveira - artista de José de Freitas (foto: arquivo revistaopiniaao.com)

A cidade de José de Freitas, pela proximidade com a capital, é cheia de artistas das mais variadas artes. Cada um com seu talento próprio e em sua área. O que acho errado. Pois o individualismo respira pelo egoísmo. E ao respirar, consome-se, pois fica em si mesmo. Não cresce, não floresce.

Nossa cidade precisa de um movimento cultural. Artistas unidos, independentemente, de posicionamento político. Pois é preciso superar esse medíocre pensamento provinciano de só se unir com quem é de A ou B. A arte está acima disso. E como artistas, é preciso que pensemos maior, que sejamos independentes.

E, eu me incluo nesse grupo, pois rabisco rudes versos. E sei que como eu, há muitos que também versificam, mas que isoladamente nada conseguem. Assim como há, em nossa cidade, muitos Erimares ( humor e teatro), muitos Joãos Oliveiras (escultura), muitos Maurícios (artes plásticas), muitos Lucas Rodrigues (música) e muitos Aertons (capoeira). Todos com sua arte, mas sem espaço para mostrar.

Contudo, para se ter espaço é preciso primeiro firmar uma identidade, sermos um movimento. Ou, como muito defendeu Aerton Tingaúna: é preciso que sejamos uma associação cultural, independente e sem ideologia política. Pois só assim, seremos artistas e não bobos da corte, sujeitos e dependentes do rei para mostrar sua arte.

(Por Marcio Mello, professor da Rede Pública Municipal de Teresina e acadêmico de Direito – UESPI)


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