ARTIGO: “VERDADE AMOROSA”

Matéria publicada em, 16 de agosto de 2011

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A expressão “verdade amorosa”  me chamou bastante atenção e tem sido objeto das minhas reflexões nos últimos tempos. Pensei que talvez não fosse um tema com conteúdo suficiente para ser discorrido e aprofundado e eu poderia correr o risco de ficar muito limitada e, portanto, ser superficial na minha abordagem. Contudo, a reflexão que fiz a partir dessa expressão trouxe a tona várias questões e questionamentos:

– Como viver a verdade de forma objetiva, sem desconsiderar os conteúdos internos que nós carregamos, muitos deles inconscientes e inconsistentes?

– Como podemos nos capacitar para viver a verdade de forma objetiva, sem cairmos no risco de impor a nossa verdade como a verdade?

– Como perceber de que forma os conteúdos internos não integrados interferem na percepção da verdade e a distorcem?

– Até que ponto a falta de maturidade e de verdadeiro compromisso com a verdade podem trazer conflitos que atrapalham na convivência harmoniosa e no cultivo de relações interpessoais maduras?

– Qual a relação entre auto-estima e compromisso com a verdade? Quer dizer, uma pessoa com auto-estima deficiente pode ter dificuldade de viver a verdade de uma forma objetiva?

Estas são algumas das questões levantadas por mim e que me ajudaram a fazer algumas considerações e iniciar um processo de reflexão, sem, todavia, conseguir responder a todas elas.

Causa preocupação e até certo ponto incômodo, perceber que a verdade é muitas vezes sacrificada por uma infinidade de fatores, principalmente a falta de um adequado conhecimento sobre nós mesmos. Há uma forte tendência de evitar um encontro verdadeiro conosco mesmos, um certo distanciamento do nosso verdadeiro núcleo ou do nosso eu interior. E isto dificulta uma relação verdadeira com a nossa verdade, com a verdade do outro e com a verdade como um ente objetivo. O que muitas vezes chamamos de verdade é apenas uma versão camuflada de realidades internas não trabalhadas, tais como: desejo de agredir, de se sobrepor aos outros, de impedir que o outro estabeleça um confronto verdadeiro nas relações, de dominar… E nem sempre nos damos conta desse movimento interno e até muitas vezes nos iludimos achando que aquilo que estamos vivendo é coerência, autenticidade, transparência.

Nos dá conta das motivações que servem de base de sustentação para o nosso agir é fundamental, até porque vai nos ajudar a distinguir aquilo que é, daquilo que não é, e nos capacitará a caminhar sobre as próprias pernas, a ser sujeito da nossa história, ter uma resposta ou fundamento para aquilo que fazemos ou deixamos de fazer e evitará que caiamos em distorções perceptivas e incorramos no erro de responsabilizar os outros por aquilo que é responsabilidade nossa, o que muitas vezes causa conflitos inúteis e infrutíferos.

Penso que uma pessoa com uma auto-estima deficiente tem uma probabilidade maior de distorcer a verdade porque o seu referencial interno de avaliação será aquilo que ela pensa de si mesma. E poderá tender, ou a estabelecer relações comparativas, ou a tecer relações competitivas, o que compromete significativamente uma percepção objetiva da verdade. Contudo, à medida que a pessoa começa a trabalhar o que pensa sobre si mesma, vai descobrindo que o outro não constitui uma ameaça, que cada pessoa tem o seu lugar, tem o seu valor, tem a sua contribuição a dar. E isto predispõe para uma relação de mais cooperação, entre-ajuda, desejo real de ver o outro crescendo, capacidade de oferecer meios para que o outro seja cada vez mais pleno, quer dizer, capacita a pessoa para receber e dar feedback. E isto sem subterfúgios, sem meias verdades, sem preocupação com o que os outros vão pensar, sem a queixa de que as pessoas não gostam de ouvir a verdade porque ela dói – pode até ser que doa porque às vezes nos põe em contato com verdades nossas que não conhecíamos, mas quando a verdade é dita pelo compromisso com a verdade, a dor não arrasa, não fere, pelo contrário, é uma dor salutar e redentora.

Neste ponto é que entra a 2ª parte da expressão, “amorosa”. Uma pessoa que ainda não tomou consciência dos seus conteúdos internos, certamente possui potencialidades abafadas, frustrações, decepções e revoltas desconhecidas, e isto dificulta que estabeleça relações afetivas baseadas na ternura e no afeto. Penso que é preciso um exercício constante de autoconhecimento, trabalho pessoal para que possamos ir capacitando o nosso coração para o amor, ou usando a expressão, para viver a verdade de forma amorosa.

E nos ambientes organizacionais de muita competição, necessidade de provar competência e eficiência, viver a verdade amorosa se torna muito mais desafiante e exige um trabalho pessoal cotidiano. Até porque, para viver esta relação amorosa, não temos que ser amáveis em apenas alguns momentos, mas a amabilidade precisa se tornar um traço característico nosso. Quer dizer, tudo que a pessoa viver ou fazer deverá estar impregnado dessa postura amável e terna. E certamente uma pessoa que ainda não conseguiu se ter nas mãos, dificilmente terá condições de viver uma relação pautada nestes critérios.

Ainda falando da relação com a verdade de uma pessoa com auto-estima deficiente, ocorre-me que tanto uma pessoa que nega sua insegurança, o auto-suficiente, como uma pessoa que parece suportá-la, o inseguro, terão dificuldades enormes de estabelecer relações verdadeiras. O primeiro, porque tem uma visão aureolada de si mesmo, o segundo, por ter um conceito depreciado de si mesmo. Em ambos os casos faltam realismo e objetividade e, consequentemente, a verdade sofrerá distorções.

Então, se queremos de fato ser pessoas plenas, temos que nos empenhar de corpo e alma na busca de nós mesmos, pois como diz Fábio Júnior na sua canção: “A gente tem um compromisso com a verdade, não dá mais pra ficar brincando de viver, tô muito a fim da minha verdadeira identidade, bateu em mim uma vontade de me conhecer”. E este compromisso exige tempo, desejo, empenho, sacrifício, que parecem coisas banidas do nosso atual momento histórico, pois podemos dizer que vivemos uma cultura do imediato, onde procura-se e encontra-se a resposta ou solução numa relação imediata, evitando caminhos longos e difíceis que podem exigir renúncia, sacrifício, paciência e determinação.

Há ainda uma outra questão que sempre reflito: existe uma verdade subjetiva que está impregnada de tudo que carregamos dentro de nós, portanto, é a minha verdade. Porém, existe uma verdade objetiva que precisa ser subjetivada para que se torne minha e passe a ser o critério das minhas decisões, e que certamente vai sofrer a influência dessa verdade subjetiva que a pessoa humana carrega em si. Como então fazer para que a minha verdade subjetiva (não sei se é a expressão mais adequada) e a subjetivação da verdade objetiva não entrem em conflito e a verdade objetiva não seja prejudicada por aquilo que faz parte da nossa verdade subjetiva?

Por Ir. Ana Maria Alves Cardoso (Congregação das Irmãs Mercedárias Missionárias do Brasil / Salvador-BA)


Revista Opinião